MÁRIO PEIXOTO: REFLEXOS EXPRESSIONISTAS

 

Constança Hertz - UFRJ

 

 

A obra de Mário Peixoto, cineasta de um único filme (Limite) e escritor de três livros realizados na década de 30, em sua juventude, encontra uma posição singular tanto no cinema quanto na literatura do Brasil. Sua obra dista de escolas ou movimentos conhecidos, seu estilo parecia não se encaixar nos modismos da época[1] e aparentemente não há proximidade estilística nem mesmo com períodos posteriores da arte brasileira. Em seu filme ou em seus livros podemos, através de suas imagens, entrever uma realidade diferente da apresentada por outros artistas brasileiros do mesmo período. Sua obra se distingue por uma visão de mundo extremamente pessoal, além de possuir um lirismo que se aproxima de um registro trágico e, por isso, incômodo. Em sua obra houve sempre a busca por um estilo capaz de expressar sua angústia.

Toda a produção literária de Mário Peixoto é marcada por ritmo e imagens. Como na linguagem cinematográfica, a realidade, tanto no romance quanto em seus poemas, parece sempre passar pelo filtro de alguma lente. Uma lente que revela cores e imagens distorcidas, dando à angústia de sua voz um lirismo informe, abstrato, que irá nos remeter a outras imagens que se criarão a partir da obra, já que é necessária uma disposição lúdica do leitor, que não poderá permanecer passivo ou estar distante do que se trata em seus textos, pois será necessário que esteja sempre atento às lacunas que os poemas e o romance deixam. Imagens abstratas, inorgânicas, que povoam o filme e também a obra literária deste autor, alternam-se com imagens orgânicas, e desta forma assinala-se uma angústia que busca e privilegia o orgânico. Torna-se indispensável que descolemos nosso olhar da realidade, para que enxerguemos sonhos e abismos, mas também é preciso voltar a ela, e o que estará diferente, depois deste percurso, será justamente o olhar, que poderá identificar o que antes não enxergava. Poderá enxergar novas direções. Há uma via orgânica, oblíqua, que tanto o filme quanto os poemas propõem que seja seguida. É preciso aceitar a angústia e entendê-la como a possibilidade de busca e, conseqüentemente, de criação.

 

A peneiração que durante o dia

vadiou na praia e embaçou minha vidraça,

povoou de cinza o mundo amedrontado dos desejos claros.

Pareceu-me impossível existisse o

sol, o ruído – e a coragem.

(trecho de Mar, de Poemas de permeio com o mar)

 

Sempre se parte do lado de dentro, a realidade é coberta por luz e cor, que tornam o olhar turvo, e o excesso de luz não permite ao sujeito enxergar, e a única alternativa é aceitar abismos que podem ser vistos. A luz, na obra de Mário, representa, em seu excesso ou em sua ausência, a distorção inerente ao olhar deste sujeito que podemos identificar nos poemas ou através da câmera que narra o filme. Não há pontos de apoio, seja na realidade externa ou interna deste sujeito que identificamos, já que ambas se misturam e é impossível dissociá-las. Mesmo os objetos da realidade tomarão as formas desse sujeito, possuirão características humanas.

O Expressionismo alemão foi uma referência fundamental para Mário Peixoto. Os filmes produzidos na Alemanha nas décadas de 20 e 30 possuem muitos aspectos que podemos perceber com clareza em toda a obra de Mário Peixoto. A lente expressionista é repleta de deformações, a realidade se mostra incerta e até mesmo viva, sempre assustadora. Não se pode então escapar à angústia, ao medo, ao desespero, em um mundo arruinado, decaído.

Junto às ruínas, na obra de Mário Peixoto, há sempre lirismo, pois apenas sonho e beleza poderiam preencher as faltas que resultam do embate trágico entre o sujeito e a realidade. A luz deforma, distorce a realidade, mas traz também a possibilidade do sublime, sem que se possa esquecer que o sublime é o impossível, que só pode acontecer em um mundo sonhado por imagens ou palavras – o sublime aparece marcado por sua trágica impossibilidade de permanência. Como o sol que parece não existir – será vital mas jamais poderá ser alcançado, como lemos no poema Mar (“pareceu impossível existisse o sol”).

Para os cineastas do Expressionismo alemão, o filme ideal deveria narrar sem palavras, as imagens precisavam ser eloqüentes o suficiente para que as palavras fossem dispensáveis, pois buscava-se uma linguagem que fosse independente da literatura. Mário Peixoto, cineasta, ao produzir literatura não contradiz este princípio, e o que podemos perceber é justamente o fato de a palavra ser incapaz de abarcar a complexidade do mundo a que está ligada. Há sempre desconfiança em relação à palavra, não se pode confiar em nada. Mas também a imagem se revela insuficiente, não se pode confiar no que expõe, e, como pressupõe a própria câmera de cinema, o olhar orgânico é marcado por falhas e insuficiências. Palavra e imagem parecem possuir um movimento reflexivo que nos remete a outras imagens e a outras palavras, com pistas que podem não ser verdadeiras – o intangível sempre estará presente. A palavra e a imagem, sonhadas, colocam o sujeito em movimento, sem que se escape às suas frustrações e às suas trágicas impossibilidades.

 

...A minha boca será para sorrir

o impossível

 (...)

tudo está prestes e no fim;

e com as luzes afastando-se

do cais,

para quem fica,

para quem estira mais dois instantes descorados,

pode ser – pode ser, meu Deus!

– que algo aconteça.

(trecho de O recanto tortuoso, de Poemas de permeio com o mar)

           

Ao associarmos o título O recanto tortuoso à toda obra de Mário Peixoto, percebemos que o tortuoso pode, também, indicar uma via oblíqua, que recusa a linha reta. A reflexão aqui é marcada pelos sentidos, e este caminho não pode ser linear, se fará sempre de modo surpreendente, a aceitar a incerteza do que poderá ser encontrado depois de curvas ou escarpas, em terra jamais firme, sempre marcada pela oscilação do movimento de um mar que não pode ser evitado, mesmo que aparentemente calmo, por fazer parte do sujeito que insiste em se expressar, mesmo que essa tentativa esteja fadada ao fracasso.

Por toda a obra, imagens de mar, sol e montanhas. A natureza, na obra de Mário Peixoto, exerce a função de aproximar as realidades interna e externa do sujeito poético que, sem permitir que se identifique seu rosto, conduz o texto e o revela em imagens. Este artista pensava por imagens, e seguindo as imagens da natureza que povoam sua obra, podemos entender que esta natureza, sempre grandiosa e assustadora como o mar, aponta para alguns fantasmas que também estiveram presentes no Romantismo[2]. A concepção de natureza de Ralph Waldo Emerson, poeta e ensaísta norte-americano do século XIX, nos permite entender algumas representações da natureza na obra de Mário Peixoto.

A Natureza ofereceria em si mesma, segundo Emerson[3], um complexo e ilimitado método de conhecimento. Ofereceria a quem aceitasse seguir as direções que indica, a possibilidade de ampliar sua visão de mundo em um jogo de referências em que realidades internas e externas se confundem. A Natureza ofereceria ao ser humano, desta forma, o aprendizado de suas correspondências, pois para este escritor romântico, a Natureza possuiria a capacidade de materializar realidades internas ao traduzi-las em imagens e sensações. Haveria ainda a possibilidade de um aprendizado constante com este universo vivo, com características autônomas, sempre a impedir o ser humano de dominá-la ou mesmo de apreender sua grandiosidade. A intenção jamais deveria ser a de subjugá-la, e sim a de aceitar sua grandeza. Só lhe restaria, portanto, seguir suas possibilidades de significação, este o imenso aprendizado que se poderia fazer, desde que se soubesse que esta Natureza seria uma espécie de mosaico vivo, em que as formas e os significados mostram-se em movimento constante. Emerson diz, ainda, que além do movimento da Natureza é preciso apreender suas cores, sua luz. Caberia ao sujeito, portanto, captar este movimento, e não exatamente sua significação, pois esta jamais será fixa ou estável.

Mário Peixoto estrutura sua obra poética a partir do olhar e desenha, com palavras, suas paisagens incertas, e nos faz enxergar esta realidade viva, esta Natureza que expressa o que este sujeito poético vivencia. Até mesmo por não ser possível haver harmonia entre este sujeito e o ambiente em que vive[4], restam apenas sonhos e delírios. E somente as imagens, sonhadas e delirantes, além da palavra, poderiam estar mais próximas da angústia desta voz que se recusa a ter rosto e, através da Natureza, termina por atingir imagens do infinito. Segundo Emerson, as “Palavras seriam organismos finitos da mente infinita[5].” Esta a busca da linguagem cinematográfica, esta a busca da poesia de Mário Peixoto, mas para o infinito pode-se apenas apontar, sem jamais alcançá-lo senão por imagens sonhadas. A única possibilidade deste sujeito poético é ficar com seus sonhos, vivenciar seus delírios. Na poética de Mário Peixoto, não há diferença entre ver e sonhar, entre pesadelo e realidade.

                       

o meu destino

correndo comigo

as praias cinzentas

árvores chorosas

 (...)

com o rosto no vidro

eu antecipava

as curvas de praias

que o trem beirava

e o que ia vendo

o que ia sonhando

 (...)

(A estrada que desce, de Mundéu)

 

Nos poemas de Mário Peixoto, as linguagens poética e cinematográfica se cruzam pelo cromatismo, pelas luzes e imagens construídas pelo movimento das palavras. Vemos que a percepção desta voz poética ocorre sempre através de palavras que seguem o movimento incerto das imagens, e identificamos, tanto no filme quanto nos livros deste autor brasileiro, muitas características expressionistas. O que torna tão peculiar sua trajetória talvez seja justamente essa mescla de linguagens, como se as linguagens cinematográfica e poética se fecundassem, e, deste modo, a reflexão se tornasse possível, através de imagens que apontam infinito.

O ritmo, o movimento e a montagem do cinema junto ao ritmo e as palavras da poesia. Os limites da palavra e os limites da imagem a apontar para o infinito, em uma reflexão e em um movimento que não podem ter fim, com a produção poética e o filme remetendo-se um ao outro sem cessar. O filme, o romance e os poemas parecem não ter um ponto final, como se tentassem se ligar a outras imagens e a outras palavras – e também ao que nem a palavra ou a imagem poderão alcançar. Imagem e palavra têm seus limites postos em xeque por este cineasta-poeta[6]. Desconfia-se da palavra e pode-se também desconfiar da imagem, já que não é possível confiar na luz ou mesmo nas cores que determinam imagens e palavras.          

Há sempre uma busca de comunicação, embora se saiba que esta seja inviável. As imagens se revelarão, a cada vez, serem outras, suas formas abarcam o informe e, deste modo, em Limite, em Mundéu ou Poemas de permeio com o mar, criam-se outras realidades, paralelas ou mesmo independentes da narrativa, com a liberdade dos lampejos de vida que saem das luzes de versos e imagens.

A fragmentação contribui para a independência das imagens, que encontram na abstração o respaldo necessário para sua independência, como fica claro no filme, em que a narrativa e a abstração alternam-se. A fragmentação da narrativa – ou o estilhaçamento de algumas imagens – nos permite perceber que esta voz, presente em todas as imagens de Mário Peixoto, sabe-se incapaz de abarcar a realidade. Se quiser capturar indícios de vida, como o cinema faz ao tentar capturar o instante, segundo Andrei Tarkovski[7], será preciso capturá-los em fragmentos, pois o olhar – orgânico – só pode capturar o real parcialmente, há sempre algo que se perde. A câmera ou as palavras, em Mário, querem-se orgânicas, mesmo quando se mostram inorgânicas.

Mário Peixoto nos revela a angústia do sujeito moderno de forma universal. A voz angustiada que percebemos em sua obra nos aponta a urgência de se buscarem novas formas de expressão. Aprendemos, com este Mário, que a luz pode ser sempre outra, e que a Beleza será sempre incerta, virá também de onde não se espera.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ARGAN, Giulio Carlo. O expressionismo. In: Arte moderna. trad. Denise Bottmann e Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BENJAMIN, Walter. O conceito de crítica de arte no romantismo alemão. Trad. Marcio Seligmann-Silva. São Paulo: Iluminuras, 1993.

CALVINO, Italo. Marcovaldo ou as estações na cidade. Trad. Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

EISNER, Lotte H. A tela demoníaca – as influências de Max Reinhardt e do Expressionismo. Trad. Lúcia Nagib. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

EMERSON, Ralph Waldo. Selected writings of Ralph Waldo Emerson. New York: The new American library, 1983.

FARIA, Octávio de. Boletim de Ariel, ano IV, número 2, novembro, 1934.

GUIMARÃES, Júlio Castañon. Mário Peixoto: cineasta-poeta. In: Suplemento número 26. Belo Horizonte: Secretária de Estado da cultura de Minas Gerais, junho de 1997.

LUCCHESI, Marco. Teatro alquímico – diário de leituras. Rio de Janeiro: Artium, 1999.

PEIXOTO, Mário. O inútil de cada um. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.

 _____. Mundéu. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.

 _____. Poemas de permeio com o mar. Inédito.

SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Ed. Léo Christiano, 1983.

TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1998.



[1] Como já apontava Octávio de Faria, no Boletim de Ariel, ano IV, n.º 2, novembro de 1934. p. 48 e 49.

[2] Segundo Lotte Eisner, alguns fantasmas do Romantismo também povoam o Expressionismo alemão.

[3] Esta concepção de natureza fica bastante clara em seu ensaio Nature, de 1836.

[4] Italo Calvino (1994): “O homem contemporâneo perdeu a harmonia entre ele e o ambiente onde vive, e superar essa desarmonia é uma tarefa árdua; as esperanças fáceis demais, idílicas, sempre se revelam ilusórias. Mas a postura que (Marcovaldo) domina é a da obstinação, da não-resignação.” p. 141.

[5] Livre tradução minha, p. 207, Nature.

[6] Este termo é retirado de um artigo de Júlio Castañon.

[7] Tarkovski (1998).